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A IMPORTÂNCIA DE ACEITAR VERSÕES POSSÍVEIS DE SI MESMA

23.02.2018

 

Eu sempre fui uma adolescente que ligava pouco ou quase nada pra minha imagem. Vejo a minha irmã mais nova escolher cuidadosamente a roupa que vai usar, a maquiagem e todos os detalhes do look para sair com as amigas e simplesmente não consigo lembrar de uma vez que eu tenha feito isso.

 

O resultado disso foi uma adolescência cheia de pernas por depilar, sobrancelhas tão mal tiradas que têm falhas até hoje e cabelos indomáveis. Some a esse cenário o fato de que eu nunca fui das meninas mais bonitas e populares do colégio e a receita para anos de invisibilidade está pronta. Os poucos namorinhos ou casinhos que tive eram amigos que em algum momento resolveram olhar mais para o que eu era do que para o que eu parecia.

 

A verdade mesmo é que eu não estava nem aí pra isso tudo. Via as maquiagens caras da minha mãe e as várias embalagens de creme no banheiro como quem olha para coisas muito distantes da sua realidade. Minhas escolhas do que usar ou como agir eram muito pautadas no que dizia na Capricho (claro, como uma boa adolescente nos início dos anos 2000) e no que as minhas amigas faziam: era pouco questionamento e muita repetição.

 

Demorei muitíssimo para começar a me preocupar com a minha imagem e a descobrir o meu corpo. Lá pelos 20 anos — sim, eu avisei que tinha sido bem tarde — foi que me deu um estalo. Não sei o que mudou, mas algo em mim gritava que eu precisava ser mais mulher e menos menina. Comecei a questionar tudo o que eu vestia, prestar mais atenção em mim. O que não é uma coisa necessariamente boa, veja bem. Deletei todas as minhas fotos da adolescência e fiquei sem lembranças de uma fase enorme da minha vida porque não conseguia aceitar a imagem que refletia quem eu fui por tanto tempo (ainda bem que as minhas amigas ainda tinham algumas guardadas).

 

E uma coisa eu posso dizer: se a preocupação com a minha aparência demorou a chegar, a cobrança sobre ela veio a cavalo logo depois. Do dia para a noite, eu estava enxergando todos os defeitos que eu nunca vi — cada celulite, cada pelinho fora do lugar, cada frizz no cabelo, cada olheira, cada flacidez, cada lugar que faltava ou sobrava. Eu mal tinha começado a pensar sobre a minha beleza e já tinha um mar críticas a fazer. Nenhum elogio.

 

Cruel, né? Fiquei muito tempo desesperada tentando consertar o desastre que eu achava que eu era. Para os cabelos, alisamento e uma boa coloração loira. Para a minha cara, maquiagem. Para a celulite e flacidez, academia. Para a falta de peitos, silicone (não coloquei, mas não faltaram planos, contas e amigas colocando para me estimular a continuar pensando nisso). E para disfarçar tudo isso, roupas novas, que fizessem de mim mais adulta e escondessem os defeitos.

 

Só tinha uma coisa que não tinha mesmo solução: eu tenho 1,54m e nunca teria pernas compridas como eu queria. Aquelas, sabe, que a gente vê em revista e acha que se não tiver iguais, as suas não prestam. Logo eu, que nunca vi problema nenhum em ser baixinha, comecei a encarar aquilo como algo irremediável, no pior sentido da palavra. Antes mesmo de chegar lá, já tinha decretado a minha falência como mulher.

 

Mas, lá no fundo, sempre senti que tinha alguma coisa errada com muito do que eu estava fazendo comigo. Dava a maior preguiça de me maquiar toda só pra ir no cinema. Uma preguiça maior ainda de usar salto pra ficar sentada no Outback comendo com as amigas. Eu odiava a sensação de tirar o sutiã de bojo com um super enchimento quando chegava em casa, fazia o meu peito parecer ainda menor sem ele. E eu definitivamente detestava a cara de morta que o cabelo loiro me dava — tinha zero contraste com a brancura da minha pele, realçava cada olheira umas 10x mais. Eu vivia atrás das lojas que as minhas amigas mais estilosas compravam pra ver se eu me encaixava em alguma coisa que vendesse por lá.

 

Vocês podem imaginar que não dá pra viver assim, essa coisa forçada durante muito tempo, né? Só que dá. Foram longos 5 anos em que eu até devia estar bonitinha, mas não me identificava com nada que eu via no espelho.

 

A salvação disso foi um conjunto complexo de fatores e uma boa pitada de sorte, acontecendo tudo assim, ao mesmo tempo.
1. Meu cabelo, é claro, não aguentava mais nenhuma química e começou a ficar mais ralo. Parei de alisar e de descolorir em uma tacada só, um alívio pro bolso e pra minha paciência (gente, ficar horas no salão nunca foi mesmo pra mim).
2. Virei rata de blogs de beleza e descobri várias maquiagens leves, naturais e práticas de aplicar. Tudo que eu precisava pra evitar uma montação danada toda vez que eu fosse na esquina, porque, né?
3. Senti uma diferença imensa no meu corpo com a academia e resolvi levar isso pra minha vida. Meu colesterol agradeceu muitíssimo, minhas coxas também.
4. Os mesmos blogs de beleza que eu acompanhava me apresentaram 900 mil tendências de moda. Como eu estava começando a melhorar no mercado de trabalho e ainda morava na casa da minha família, consegui arriscar gastar uns reais em roupas pra ir testando o que eu realmente gostava. No fim, acho que encontrei meu estilo e também entendi que ele pode ser mais fluido. Hoje tenho menos medo de brincar com o visual.

 

E aí, meus queridos, entrou o fator chave para a maior transformação de todas: eu comecei a ler sobre aceitação, quebra de padrões e feminismo na internet.

 

Longe de querer militar aqui, tá? Mas isso fez muita diferença na forma como eu me enxergava e como me expunha pras pessoas. Eu passei a entender que não existe um único tipo de corpo aceitável, a valorizar meus lados positivos e caí na real que pernas curtas e peitos pequenos eram só defeitos criados por um padrão de beleza inatingível.


Tudo ficou mais claro pra mim. Hoje eu entendo que vou usar a maquiagem que eu quiser e só quando eu quiser porque não sou obrigada a estar sempre perfeita. Eu entendo que não existe só o estilo boho do Coachella e que eu posso vestir o que eu quiser porque se eu estou feliz com o resultado, é só isso que interessa (adeus, saltos. Que saudade que eu estava dos tênis).

 

Mas vai TÃO além disso.


Eu entendi que não preciso agradar ninguém que não seja eu mesma. E com isso vem uma confiança que eu nunca tinha vivenciado. Confiança que me deu coragem para amar meu cabelo na sua cor natural, pra finalmente me sentir mulher, me sentir bonita, confiança que me deu coragem para ser a melhor versão de mim mesma: aquela que eu mais gostar.


Essa confiança não é inquebrável, é claro que não. Somos constantemente questionadas sobre o que fazemos e como aparentamos, como se vivêssemos sob o julgamento "da sociedade". A ponto de me por insegura várias vezes, especialmente diante de outras mulheres (como ainda somos cruéis com as outras, meninas).


E vivemos mesmo sob esse julgamento. O tempo todo. Mas é a segurança de saber que só a sua opinião importa nas decisões sobre a sua beleza que faz com que você não enlouqueça. Ninguém paga as suas contas, ninguém lava as suas calcinhas (e mesmo seus pais não deviam poder optar sobre como você quer se apresentar para o mundo). O que aparentamos é uma expressão de nós mesmas que deve ser preservada a todo custo. Não tem porque deixarmos estranhos influenciarem tão profundamente no que projetamos de nós mesmos pro mundo. Não é porque todo mundo coloca silicone e fala que maneiro é ter peitão que você não pode gostar o seu peitinho, por exemplo.


Foi aceitando as versões possíveis de mim mesma, aquelas que eu conseguia e efetivamente queria atingir, aquelas que possibilitam me reconhecer na imagem do espelho que eu passei a amar a mim mesma. O amor próprio é uma redenção: ele possibilita uma vida despida de incertezas sobre a sua identidade. Possibilita uma vida sendo você. Sem disfarces. É o que tem pra hoje.

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