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SOBRE FAZER O QUE SE AMA (E O QUE NÃO SE AMA TAMBÉM)

19.02.2018

 

Foi assim:


Na casa dos vinte-quase-trinta, a chegada de uma escola de gastronomia perto da rua da minha casa me fez olhar para mim. Eu, que sempre fui de pensar demais e fazer de menos, me vi obrigada a agir - porque, dessa vez, não tinha mais desculpa. Depois de um dia corrido no trabalho, escolhi sexta-feira para conhecer a cozinha da escola, sabendo que já sairia de lá matriculada. 


Não teve jeito: foi assim. 


Engraçado é que, desde muito cedo, eu sabia que escolher uma profissão seria uma tarefa muito difícil para mim. Sempre gostei de estudar e tinha minhas preferências, Alexandre O Grande que o diga. Apesar disso, a ideia de escolher algo para fazer pelo resto da minha vida sempre me pareceu limitadora. Foi por conta disso que, com dezoito anos, tive que escolher um caminho e deixar todos os outros de lado: o da arqueóloga que desbravava a terra, o da fisioterapeuta, o da jornalista, o da esteticista, o da escritora, o da barista que tinha um café. 


Se existem universos paralelos para cada uma das nossas escolhas, tenho certeza que meus multiversos seriam casos de estudo para os físicos da teoria quântica.


O fato é que, nesse universo aqui, uma escola de gastronomia surgiu do lado da minha casa. Depois de eu já ter me formado, depois de eu já ter viajado o mundo, depois de eu já ter trabalhado com tudo, menos com comida. Foi por isso que, quando me matriculei para o curso de Chef em Confeitaria, a sensação que fiquei foi a de que eu tinha provado todas as roupas do meu armário para, no fim das contas, acabar vestindo a primeira delas. 


Essa roupa eu já conhecia. Mas, logo no primeiro dia de aula, tive que fazer as pazes com o açúcar. Sempre tivemos uma relação conturbada, daquelas que envolvem culpa, uma balança e mais açúcar. Nas aulas e semanas que se seguiram, fui me dando conta de que um dos grandes motivos pelo qual eu não entrei em contato com a confeitaria mais cedo estava bem ali, naquela batalha descabida: eu, o açúcar e meu autocontrole.   


O segundo grande motivo é justamente a razão pela qual decidi escrever esse texto. Optei por um novo caminho profissional aos 28 anos, sem filhos e sem tantos anos assim nas costas. Tive que desconstruir uma série de ilusões que criei para mim mesma. Descobri que tinha preconceitos, descobri que não me via passando horas em um escritório pelo resto da minha vida e por isso resolvi mudar. Mas descobri também que não sei se a cozinha será o meu lugar para sempre, porque a vida não é permanente. 


A verdade (e essa foi a que mais me doeu ao descobrir) é que eu mudo, mudo, mudo e mudo mais um pouco, esperando encontrar um universo paralelo onde tudo flua perfeitamente. Sem louça para lavar, sem horas em pé, sem matemática, sem dúvida e sem medos. 


Talvez, um universo onde eu flua perfeitamente.


Tentei seguir o clichê, fazer o que amo para não trabalhar um só dia sequer. O que encontrei depois de um ano, um diploma e muito açúcar nas mãos me trouxe uma dose de surpresa e outra de alívio:


No fim das contas, fazer o que amamos exige esforço. Exige sabedoria para lidar com o que sentimos, com o que queremos, com o que conseguimos, com quem somos e com o que não amamos. Porque fazer o que se ama envolve, em grande parte, fazer o que não se ama. 


Mesmo que isso tudo seja em frente a uma panela de brigadeiro. 
 

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