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TÁ LIBERADO NÃO SER O MELHOR

14.03.2018

 

Era uma vez uma menina que, um dia, resolveu disputar o revezamento 4x100 das olimpíadas do colégio. Eis que, no seu momento de glória, segundos depois de pegar o bastão das mãos de uma colega de turma, ela pisa em uma amêndoa. 


E tropeça de um jeito que mais parecia que estava voando.


Tinham umas 50 crianças assistindo à queda lenta e dolorosa. Eu era aquela menina. Levantei com o que sobrou do meu joelho, ralado até dizer chega; catei o bastão sabe-se-lá-de-onde e corri. Corri pra ver se a próxima menina da minha sala conseguiria recuperar a desvantagem e deixar a gente numa posição menos vergonhosa. Corri pra ver se ainda tinha saída pra minha falha.
Não teve, é claro.


A cena foi feia, não vou mentir. Não é à toa que, de tantos anos disputando naquelas olimpíadas, essa é uma das poucas cenas que eu consigo me lembrar. A real mesmo é que eu não liguei muito pra isso. Eu continuei correndo, jogando basquete como dava, disputando no handebol com zero habilidade (mas muita garra), sendo uma péssima goleira de futebol e tudo o mais que eu amava fazer. 


Ainda bem.


Por que eu estou falando isso? Porque a impressão que eu tenho é que somos ensinados a só enxergar a vitória como única alternativa possível.

 

Photo by Matheus Ferrero on Unsplash


Para e pensa: quantas vezes você ficou feliz de ter participado de um processo seletivo do qual não foi selecionado? Quantas vezes você ficou de boa quando o seu time do coração perdeu a final do campeonato, mas pelo menos participou? Quem você conhece que aplaudiu a participação do Diego Hipólito  - um puta ginasta  -  quando ele caiu sentado durante uma apresentação? 
Você acha que dá pra ver o orgulho nos olhos dos pais de quem não passou no vestibular?


É gente jogando videogame com o amigo pra zoar ele quando ganhar. Criança comparando notas escolares entre si. Gente se matando nos ambientes de trabalho para subir de cargo. Ganhar, ganhar, ganhar.


É muita pressão o tempo todo para atingir o sonho dourado. Para sermos jovens, saudáveis, ricos, bem-sucedidos profissionalmente, termos uma vida familiar perfeita, um apartamento incrível e viajar todo ano... não existe outro caminho que não seja uma caminhada arrebatadora de vitória atrás de vitória. Não somos acostumados à ideia de falhar.
O problema com essa mentalidade é que é na falha que você aprende. Aliás, mais do que na falha, eu diria que é na prática que você aprende. Entende seus limites, compreende as regras, domina as técnicas, ganha entrosamento com seus companheiros de equipe e, mais do que tudo isso, se d-i-v-e-r-t-e. Assim, só por tentar.


Pode anunciar: tá liberado não ser o melhor, gente. Tá liberado competir só pra participar.


Tá liberado fazer aula de dança mesmo se você não tem ginga nenhuma. Tá liberado se matricular em corrida de rua mesmo que seja pra cruzar a linha de chegada caminhando exausta. Tá liberado estudar 3 anos seguidos pra passar no ENEM pra medicina.
O importante é voltar pra casa suando, cansado, mas feliz com a certeza de que você deu o seu melhor, de que você aproveitou. Sempre.


Você pode disputar, é claro que pode. Pode querer ganhar também, quem não quer?  É bom demais. Mas o que não dá é colocar isso como meta absoluta da sua participação, entende? Têm de haver outras coisas que te recompensem que não só ganhar. Porque, se for assim, toda vez que você perder alguma coisa será uma frustração imensa. Porque muitas vezes o jogo é em equipe e chegar lá não depende só de você. Porque os outros competidores podem ter dado duro e estarem à sua altura. E, convenhamos, mesmo se o caso for de tudo depender só do seu esforço, até atletas de alto nível, executivos riquíssimos e alunos inteligentíssimos já tiveram seus momentos de mais “falhas” do que acertos.


Voltando à história do início do texto, eu sempre fui baixinha, desde criança. E também sempre fui apaixonada por praticar esportes em equipe. Se eu ganhasse R$1 pra cada vez que ouvi um comentário sobre como precisava ser alta pra jogar <insira aqui um esporte>, seria a baixinha mais rica desse Brasil. Mas, graças a uma teimosia sem fim — e a uma turma de meninas que não gostava nadinha de esportes, o que fazia com que a gente ficasse sempre entre as últimas colocações nas olimpíadas, eu foquei mais em participar de tudo e me divertir do que em ser campeã de alguma coisa.


Hoje em dia eu sei que ser adulto é bem mais difícil do que parecia (especialmente para quem, como eu, imaginava que seria rica e bem-sucedida aos 25), sem querer ser negativa. E o esporte continua funcionando como uma grande metáfora para qualquer conquista.


Então, mesmo agora, papo de 15 anos depois do maior tombo da minha vida, só tenho a agradecer àquela garotinha teimosa por me ensinar a levantar e continuar correndo. Afinal, se você deu o seu melhor, não tem nada de errado em não ganhar.

 

Sabe aquele slogan: “Keep walking”?
Keep running.

 

 

*Primeira foto by AJ Garcia on Unsplash

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